domingo, dezembro 30, 2007

Já me comovo de há dois anos atrás. Recordo-me de passear livremente por Lisboa, principalmente nas zonas comerciais, esperando pelos momentos. Tudo era diferente. Estava mais amplamente só, e no entanto tendencialmente mais próximo do que me rodeava. Soube encontrar-me nas esquinas, descobrir afecto por esta cidade despreocupada. Está em nós, a qualidade da percepção. In the eye of the beholder. A cidade era, sim, movimentada, sob o fino sol que dourava o Chiado. Mas era-lo apenas porque as pessoas andavam, não que tivessem pressa no sentido real da palavra. Tudo pertencia à sua era. Cabia-me imergir nesse cenário. Recolhia os seus tons dominantes, sem horário. As marés interiores existiam essencialmente molhando os pés do resto, e deixando um pouco de espuma e emoções pela paisagem (assim o filtra a saudade, fantasista). Por vezes impressionista, dava-me ainda à materialização de laivos próprios e, de certa forma, de sempre. Ainda que de alma renovando-se, era em parte a infância quem me acariciava ao de leve, memórias e emoções pueris, em sua simplicidade.

Fui um discípulo nesta rota mundana de purificação, por contraditório que tal soe. Não o sou hoje. As altercações são mais intensas, absolutas até. A fase escala, embora não precipitadamente, para um estágio antigo de excesso e de fracasso. Por demais me adapto, escorregando do posto de observação em que a identidade era, resguardadamente. Por demais sinto o tombo pesar-me na espinha dorsal. Quer dizer...

Tem dias.

Talvez decida voltar a vincar a espiritualidade. Talvez volte a empunhar o escudo, junto com o gládio. De qualquer forma, tal pouco importa agora e aqui. Ontem, ontem sim, perpassavam múltiplas anotações pela minha mente, que incluiam também estas recentes lembranças. Ontem passou, como passaram estes dias. É verdadeiramente no passado que reside este hoje, que apenas recupero, sumáriamente, restauração evidente.